Custo real da dignidade: quanto vale garantir o básico à pessoa idosa?

Especialistas alertam que o chamado “mínimo existencial” previsto na Lei do Superendividamento está muito distante da realidade de idosos institucionalizados, cujo custo mensal pode superar R$ 5 mil por pessoa

Garantir dignidade à pessoa idosa no Brasil, especialmente àquela que depende de uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), exige muito mais do que assegurar teto e alimentação. Na prática, o custo real envolve uma estrutura complexa que reúne moradia, alimentação, medicamentos contínuos, equipe multiprofissional, assistência em saúde, higiene, acessibilidade e proteção integral.

Embora a Lei 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, tenha consolidado o conceito de “mínimo existencial” como proteção da renda necessária à sobrevivência digna, especialistas e gestores que atuam diretamente com a população idosa afirmam que os valores frequentemente discutidos no campo jurídico ou econômico não refletem a realidade concreta da velhice, sobretudo quando há dependência, abandono ou institucionalização.

Em Cuiabá, a Fundação Abrigo Bom Jesus, principal referência em acolhimento de longa permanência, estima que o custo médio mensal por idoso gira em torno de R$ 5 mil — valor que inclui despesas com folha de pagamento, equipe técnica, alimentação, medicamentos, enfermagem, psicologia, nutrição e manutenção.

Segundo a presidente da instituição, Márcia Antonia Ferreira, a Fundação acolhe cerca de 100 idosos, muitos deles encaminhados pela própria rede pública de assistência social ou por decisões judiciais, por meio de convênio com a Prefeitura de Cuiabá. Pelo acordo, o município repassa R$ 1.300 mensais por idoso institucionalizado, valor que, segundo Márcia, está muito abaixo da necessidade concreta da instituição. “O repasse está muito distante da realidade e não cobre sequer os custos básicos”, ressaltou.

A gestora explica que apenas a folha salarial da Fundação, que mantém quase 90 funcionários, ultrapassa R$ 200 mil por mês. Ela destaca ainda que a área da saúde concentra parte significativa das despesas, especialmente porque o recurso público conveniado não pode ser utilizado para medicamentos nem para custear profissionais essenciais, como enfermeiros, técnicos de enfermagem, nutricionistas e psicólogos.

“Nosso custo mais alto está justamente na saúde. E, sem possibilidade de usar esse recurso para itens fundamentais, precisamos buscar alternativas constantemente para manter a estrutura funcionando”, pontuou.

Na prática, isso faz com que despesas essenciais sejam sustentadas, em grande parte, por doações da sociedade civil. Para Márcia, esse cenário evidencia uma distorção na divisão de responsabilidades sobre a proteção social da pessoa idosa. “Sem o apoio da sociedade, seria impossível manter o padrão de atendimento necessário. Isso mostra que o custo da dignidade ainda recai de forma desigual, apesar de ser uma responsabilidade pública”, observou.

Além da vulnerabilidade social, Márcia também chama atenção para uma crescente violência financeira entre os idosos acolhidos. Segundo ela, parte dos residentes enfrenta problemas relacionados a empréstimos consignados, muitas vezes associados a fraudes ou exploração familiar.

“Muitos idosos chegam até nós já comprometidos financeiramente, vítimas de fraudes ou até de exploração dentro da própria família. Isso agrava ainda mais uma condição que já é de extrema fragilidade”, relatou.

Diante dessa realidade, o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (CEDEDIPI-MT), Isandir Rezende, faz um alerta contundente: tratar dignidade com base em parâmetros abstratos ou financeiramente irreais é ignorar o custo verdadeiro de envelhecer com proteção.

“Quando se fala em mínimo existencial, é preciso perguntar: mínimo para quem e para qual realidade? Porque nenhum idoso, especialmente aquele em condição de vulnerabilidade ou institucionalizado, consegue viver com dignidade com valores que não cobrem sequer alimentação, medicamentos e cuidados básicos. Defender parâmetros incompatíveis com a vida real é institucionalizar a indignidade.”

Para Isandir, os números mostram que envelhecer exige políticas públicas baseadas em custo real, não em ficção orçamentária. “Hoje, quando uma instituição séria aponta custo médio de R$ 5 mil por idoso, mas o poder público repassa R$ 1.300, fica evidente que existe uma distância brutal entre discurso e prática. O verdadeiro custo da dignidade na terceira idade inclui saúde, proteção, acompanhamento especializado e segurança. Qualquer valor muito abaixo disso revela uma conta que fecha no papel, mas fracassa na vida real.”

O presidente do CEDEDIPI-MT também critica o impacto do superendividamento entre idosos, especialmente diante de fraudes e empréstimos abusivos. “O idoso não sofre apenas com abandono físico ou emocional. Muitos enfrentam abandono financeiro, fraudes, consignados abusivos e exploração da própria renda. O mínimo existencial precisa proteger de fato essa população, porque dignidade não pode ser reduzida a um número simbólico enquanto direitos básicos seguem comprometidos.”

Na avaliação de especialistas da área, o debate sobre o mínimo existencial precisa avançar para além da proteção jurídica ao crédito e incorporar indicadores reais de sobrevivência, envelhecimento e cuidado.

Para quem vive a rotina das ILPIs, a conclusão é objetiva, envelhecer com dignidade custa, e custa muito mais do que o mínimo. Exige responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado. Sem isso, a conta recai justamente sobre quem mais precisa de proteção.

Em manifesto público, a Comissão Nacional de Direito Bancário da Associação Brasileira de Advogados (ABA) reforçou essa preocupação ao alertar para o risco de interpretações que fixem patamares mínimos de subsistência incompatíveis com a realidade brasileira. Para a entidade, admitir que um cidadão possa sobreviver com apenas R$ 600 mensais afronta diretamente os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e esvazia o conteúdo material dos direitos fundamentais.

A Comissão destaca que o chamado mínimo existencial não pode ser tratado como cálculo abstrato, desconectado do custo real de vida, das necessidades básicas e das condições concretas enfrentadas pela população. No entendimento da ABA, decisões que ignoram o cenário econômico vivido pelos brasileiros aprofundam desigualdades, fragilizam a proteção social e afastam o Direito de sua função essencial de promoção da justiça.

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Projeto Conviver transforma rotina de idosos por meio da arte, cultura e lazer

Iniciativa desenvolvida pela Fundação Abrigo do Bom Jesus promove inclusão social, autonomia e qualidade de vida de pessoas idosas por meio de atividades culturais, terapêuticas e recreativas O Projeto Conviver, desenvolvido pela Fundação Abrigo do Bom Jesus, em Cuiabá, vem transformando a rotina dos idosos acolhidos na instituição por meio de atividades que estimulam a criatividade, a convivência social, o bem-estar e o envelhecimento ativo. A iniciativa conta com recursos provenientes de uma emenda parlamentar no valor de R$ 80 mil, que permitiram fortalecer e ampliar as ações desenvolvidas pelo projeto. Para conhecer de perto os resultados da iniciativa e acompanhar a aplicação dos recursos públicos, a vereadora Michelly Alencar, autora da emenda parlamentar, visitou a instituição e participou de uma das aulas de pintura em tela ministradas semanalmente pela artista plástica Huxilaine. Durante a visita, a parlamentar conversou com os idosos e acompanhou o desenvolvimento das atividades. Há três anos, o Projeto Conviver oferece uma programação permanente voltada à promoção da qualidade de vida das pessoas idosas residentes na Fundação Abrigo do Bom Jesus. Entre as atividades desenvolvidas estão cursos de pintura em tela, oficinas de modelagem em argila, contação de histórias, aulas de equoterapia, hidroterapia e passeios culturais e recreativos, incluindo visitas a shopping centers, sessões de cinema, pescarias e outras ações de integração com a comunidade. Segundo os gestores da instituição, o principal objetivo do projeto é proporcionar aos idosos oportunidades de socialização, fortalecimento dos vínculos comunitários e participação em atividades que estimulem a autonomia, a autoestima e o protagonismo na terceira idade.Um dos destaques do Projeto Conviver é a oficina de pintura em tela. As obras produzidas pelos idosos são periodicamente expostas em um importante shopping de Cuiabá e comercializadas durante as exposições promovidas pela instituição. Toda a renda obtida com a venda das telas é destinada aos próprios artistas, que utilizam os recursos para adquirir produtos de uso pessoal, reforçando sua autonomia financeira e valorizando seu talento. A Fundação Abrigo do Bom Jesus destaca que iniciativas como o Projeto Conviver demonstram que o acolhimento institucional vai além da assistência básica, oferecendo oportunidades para que os idosos permaneçam ativos, criativos e integrados à sociedade. O apoio de parceiros e do poder público tem sido fundamental para consolidar ações que promovem dignidade, inclusão social e uma melhor qualidade de vida aos residentes.

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Presidente alerta para abandono familiar e violência também do Estado contra idosos

O mês de junho chega ao fim, deixando um importante alerta à sociedade e ao poder público. Conhecido como Junho Violeta, o período é dedicado à conscientização e ao combate à violência contra a pessoa idosa, chamando a atenção para uma realidade que tende a se agravar nas próximas décadas em razão do acelerado envelhecimento da população brasileira. O Brasil já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Atualmente, existem cerca de 6,2 mil Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) no país, que acolhem aproximadamente 160 mil idosos. Desse total, cerca de 65% das instituições são filantrópicas, enquanto apenas 6,5% são mantidas diretamente pelo poder público. Para a presidente da Fundação Abrigo Bom Jesus, Márcia Ferreira, por trás desses números existem fatos que exigem atenção e responsabilidade do Estado que também é, segundo ela, agente da violência contra a pessoa idosa, tanto quanto a violência do abandono familiar. “As instituições filantrópicas convivem diariamente com enormes desafios financeiros e operacionais. Em Cuiabá, como o município não possui uma instituição pública de longa permanência para idosos, os acolhimentos são encaminhados para o Abrigo Bom Jesus por meio de convênio com a Prefeitura. No entanto, o município repassa aproximadamente R$ 1.300 por idoso, enquanto o custo real de manutenção é de cerca de R$ 5.200 mensais por pessoa”, explica. Segundo ela, a situação é ainda mais preocupante porque existe uma fila administrada pela Secretaria Municipal de Assistência Social com quase 90 idosos em situação de vulnerabilidade social aguardando acolhimento. Enquanto isso, a Prefeitura de Cuiabá anunciou a construção de uma instituição pública de longa permanência, com previsão de conclusão apenas para 2028. De acordo com a dirigente da Associação Seara de Luz, Elione Fátima de Almeida Santos, entidade beneficente que atua tanto no atendimento de crianças quanto no acolhimento de idosos abandonados, a solução imediata passa pela ampliação dos convênios com as entidades filantrópicas. “É preciso que a Prefeitura firme novos convênios para ampliar o número de vagas. Se existe realmente interesse em resolver esse problema, é necessário fortalecer quem já presta esse serviço. Caso contrário, a fila poderá ultrapassar rapidamente a marca de cem idosos aguardando acolhimento”, afirma. Integração entre Saúde e Assistência Social Outro ponto considerado prioritário pelas instituições é a integração entre as políticas públicas de assistência social e saúde para garantir o atendimento adequado aos idosos institucionalizados. Segundo Márcia Ferreira, é necessário redesenhar o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) na política nacional de cuidados de longa duração. “Hoje, as instituições assumem também uma função de atendimento em saúde, mas sem o devido financiamento. Muitos idosos chegam ao Abrigo Bom Jesus após terem sido abandonados em hospitais, vários deles acamados, necessitando de cuidados permanentes, uso de oxigênio, medicamentos e acompanhamento de enfermagem, mas sem qualquer custeio específico do SUS”, destaca. Ela defende que os custos relacionados à assistência em saúde dos idosos institucionalizados sejam financiados pelo Sistema Único de Saúde. “É uma incoerência que hospitais particulares contem com leitos financiados pelo SUS e que instituições filantrópicas, que atendem idosos em situação de extrema vulnerabilidade, não possam receber esse mesmo apoio”, ressalta. Atualmente, o Abrigo Bom Jesus acolhe 101 idosos, dos quais aproximadamente 20 são acamados, portadores de doenças crônicas e com necessidade de atendimento permanente de saúde. Expectativa pela aprovação do Projeto de Lei 411/2024 As entidades filantrópicas de Mato Grosso e de todo o país acompanham com expectativa a tramitação do Projeto de Lei nº 411/2024, de autoria do deputado federal Pepe Vargas, que propõe a integração entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), criando mecanismos permanentes de financiamento dos cuidados prestados aos idosos institucionalizados. Além da proposta em tramitação no Congresso Nacional, em 2025 a diretoria da Fundação Abrigo Bom Jesus, por intermédio da senadora Margareth Buzetti, encaminhou ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um documento solicitando a edição de uma portaria interministerial entre os Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento e Assistência Social. A proposta prevê a criação de instrumentos que permitam a utilização de recursos públicos para custear os serviços de saúde oferecidos aos idosos acolhidos por instituições filantrópicas. Neste encerramento do Junho Violeta, dirigentes das entidades reforçam que o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa também passa pela garantia de políticas públicas que assegurem acolhimento digno, financiamento adequado e acesso integral à saúde para aqueles que vivem em instituições de longa permanência.

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Junho Violeta termina com alerta para a situação dos idosos em vulnerabilidade

O mês de junho chega ao fim deixando um importante alerta à sociedade e ao poder público. Conhecido como Junho Violeta, o período é dedicado à conscientização e ao combate à violência contra a pessoa idosa, chamando a atenção para uma realidade que tende a se agravar nas próximas décadas em razão do acelerado envelhecimento da população brasileira. O Brasil já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Atualmente, existem cerca de 6,2 mil Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) no país, que acolhem aproximadamente 160 mil idosos. Desse total, cerca de 65% das instituições são filantrópicas, enquanto apenas 6,5% são mantidas diretamente pelo poder público. Para a presidente da Fundação Abrigo Bom Jesus, Márcia Ferreira, por trás desses números existem fatos que exigem atenção e responsabilidade do Estado que também é , segundo ela, agente da violência contra a pessoa idosa , tanto quanto a violência do abandono familiar . “As instituições filantrópicas convivem diariamente com enormes desafios financeiros e operacionais. Em Cuiabá, como o município não possui uma instituição pública de longa permanência para idosos, os acolhimentos são encaminhados para o Abrigo Bom Jesus por meio de convênio com a Prefeitura. No entanto, o município repassa aproximadamente R$ 1.300 por idoso, enquanto o custo real de manutenção é de cerca de R$ 5.200 mensais por pessoa”, explica. Segundo ela, a situação é ainda mais preocupante porque existe uma fila administrada pela Secretaria Municipal de Assistência Social com quase 90 idosos em situação de vulnerabilidade social aguardando acolhimento. Enquanto isso, a Prefeitura de Cuiabá anunciou a construção de uma instituição pública de longa permanência, com previsão de conclusão apenas para 2028. De acordo com a dirigente da Associação Seara de Luz, Elione Fátima de Almeida Santos, entidade beneficente que atua tanto no atendimento de crianças quanto no acolhimento de idosos abandonados, a solução imediata passa pela ampliação dos convênios com as entidades filantrópicas. “É preciso que a Prefeitura firme novos convênios para ampliar o número de vagas. Se existe realmente interesse em resolver esse problema, é necessário fortalecer quem já presta esse serviço. Caso contrário, a fila poderá ultrapassar rapidamente a marca de cem idosos aguardando acolhimento”, afirma. Integração entre Saúde e Assistência Social Outro ponto considerado prioritário pelas instituições é a integração entre as políticas públicas de assistência social e saúde para garantir o atendimento adequado aos idosos institucionalizados. Segundo Márcia Ferreira, é necessário redesenhar o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) na política nacional de cuidados de longa duração. “Hoje, as instituições assumem também uma função de atendimento em saúde, mas sem o devido financiamento. Muitos idosos chegam ao Abrigo Bom Jesus após terem sido abandonados em hospitais, vários deles acamados, necessitando de cuidados permanentes, uso de oxigênio, medicamentos e acompanhamento de enfermagem, mas sem qualquer custeio específico do SUS”, destaca. Ela defende que os custos relacionados à assistência em saúde dos idosos institucionalizados sejam financiados pelo Sistema Único de Saúde. “É uma incoerência que hospitais particulares contem com leitos financiados pelo SUS e que instituições filantrópicas, que atendem idosos em situação de extrema vulnerabilidade, não possam receber esse mesmo apoio”, ressalta. Atualmente, o Abrigo Bom Jesus acolhe 101 idosos, dos quais aproximadamente 20 são acamados, portadores de doenças crônicas e com necessidade de atendimento permanente de saúde. Expectativa pela aprovação do Projeto de Lei 411/2024 As entidades filantrópicas de Mato Grosso e de todo o país acompanham com expectativa a tramitação do Projeto de Lei nº 411/2024, de autoria do deputado federal Pepe Vargas, que propõe a integração entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), criando mecanismos permanentes de financiamento dos cuidados prestados aos idosos institucionalizados. Além da proposta em tramitação no Congresso Nacional, em 2025 a diretoria da Fundação Abrigo Bom Jesus, por intermédio da senadora Margareth Buzetti, encaminhou ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um documento solicitando a edição de uma portaria interministerial entre os Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento e Assistência Social. A proposta prevê a criação de instrumentos que permitam a utilização de recursos públicos para custear os serviços de saúde oferecidos aos idosos acolhidos por instituições filantrópicas. Neste encerramento do Junho Violeta, dirigentes das entidades reforçam que o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa também passa pela garantia de políticas públicas que assegurem acolhimento digno, financiamento adequado e acesso integral à saúde para aqueles que vivem em instituições de longa permanência.

Eventos
Festa Junina do Abrigo Bom Jesus reúne gerações em tarde de alegria e inclusão

Evento contou com a presença de familiares, voluntários e garantiu a participação dos 101 residentes, incluindo os idosos acamados e cadeirantes A edição de 2026 da tradicional Festa Junina do Abrigo Bom Jesus foi marcada por momentos de alegria, integração e inclusão. Neste ano, os idosos acamados também participaram da celebração, interagindo com os demais residentes, familiares, amigos e convidados em uma tarde repleta de carinho e animação. Familiares e amigos dos 101 moradores da instituição prestigiaram o evento, ao lado dos grupos de voluntários que contribuem durante todo o ano com o dia a dia do abrigo. O grupo Netos da Alegria foi responsável pela pescaria, uma das atrações que mais movimentou a festa. Outro destaque ficou por conta dos amigos do Manoel da Canjica, que, além de servirem a tradicional canjica, proporcionaram um animado show de dança de salão. O grupo também comandou a quadrilha, que contou com a participação de diversos idosos, incluindo moradores cadeirantes, reforçando o espírito de inclusão e celebração que marcou a festa.

Notícias
Casos de violência contra idosos quase triplicam em MT e alertam para necessidade de proteção

A campanha “Junho Violeta”, sob o tema “A liberdade não tem prazo de validade”, ganha urgência em Mato Grosso diante de um cenário de alerta, visto que as notificações de violência contra idosos triplicaram no estado em uma década. Dados do Atlas da Violência mostram que os registros nos serviços de saúde saltaram de 59 casos em 2014 para 174 em 2024. O avanço joga luz sobre o principal objetivo da mobilização, que é romper o silêncio em torno dos abusos na velhice, crimes ocorridos majoritariamente de forma oculta no ambiente familiar. Segundo especialistas, esse crescimento reflete tanto o envelhecimento acelerado da população, impulsionado pela transição demográfica do IBGE, quanto uma postura mais ativa da rede de saúde em reportar os casos pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). O comportamento desses dados na última década mostra o isolamento social enfrentado por essa população. Entre 2014 e 2015, Mato Grosso manteve média de 59 notificações anuais, mas, no ápice da pandemia em 2020, o número subiu para 63, refletindo o confinamento forçado das vítimas com seus agressores e o afastamento dos serviços de saúde. Com a retomada das atividades, a curva disparou até atingir o teto histórico em 2024, panorama que se repete no cenário nacional, onde houve alta de 226,3% na década, ultrapassando os 30 mil casos. Na capital, os impactos dessa realidade são observados diariamente pela rede socioassistencial do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), conforme avalia a secretária municipal de Assistência Social, Direitos Humanos e Inclusão de Cuiabá, Hélida Vilela de Oliveira. “Muitos idosos chegam aos serviços em situação de fragilidade, isolamento, rompimento de vínculos familiares, ausência de cuidados e, em alguns casos, sem qualquer referência familiar capaz de exercer a função protetiva”, pontua a secretária. A atuação do município divide-se entre a prevenção de riscos e o atendimento especializado às violações instaladas. Na linha de frente preventiva, a Proteção Social Básica atua por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e dos Centros de Convivência para Idosos (CCI). No primeiro trimestre de 2026, Cuiabá registrou 189 idosos no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) nos CRAS e 1.104 participantes nos CCIs, além de realizar 1.679 emissões da Carteira da Pessoa Idosa. Hélida Vilela de Oliveira aponta que o convívio social funciona como um escudo protetor para a terceira idade. “A convivência comunitária tem impacto direto no enfrentamento à violência. Idosos que participam de grupos têm mais oportunidades de serem vistos e ouvidos, o que facilita a identificação precoce de mudanças de comportamento, sinais de abandono ou exploração financeira”, explica Hélida. Quando a violência se concretiza, os casos vão para a Proteção Social Especial de Média Complexidade, via Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS). O diagnóstico local é alarmante, pois, no primeiro trimestre de 2026, dos idosos acompanhados pelo Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI) na capital, 92,9% são relativos a situações de negligência ou abandono, enquanto 7,1% envolvem violência intrafamiliar física, psicológica ou sexual. O abuso contra idosos também se manifesta de forma estrutural e velada, associado à perda de autonomia e à falta de suporte. Um raio-x da rede municipal aponta que, entre os idosos que aguardam vaga em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) em Cuiabá, 62,5% possuem autonomia parcial, 14,8% estão acamados e apenas 22,7% apresentam autonomia total. A vulnerabilidade habitacional e familiar desses idosos da fila de espera também demonstra insegurança, já que 44% residem com familiares sem a proteção necessária e 28,4% moram sozinhos. Outros 14,8% estão em situação de rua, 6,8% vivem em casas de apoio, 5,7% em casas de amigos e 3% encontram-se internados. Nos casos graves de risco iminente ou abandono, a Alta Complexidade entra com o acolhimento institucional. No primeiro trimestre de 2026, foram 193 acolhimentos em unidades para adultos e famílias em Cuiabá, além de 100 idosos assistidos na ILPI por meio de parceria com o tradicional Abrigo Bom Jesus. A realidade institucional, contudo, revela que os reflexos do abandono e da violência financeira sobrecarregam as entidades filantrópicas que atuam na ponta, conforme relata a presidente da fundação, Márcia Ferreira. “Hoje o Abrigo tem 100 idosos. Desses 100 idosos, eu diria que 99% é fruto do abandono. Do abandono familiar e, por conseguinte, então a violência desse abandono, né? E essa violência, não é só uma violência familiar. Cerca de 10% dos nossos idosos têm empréstimos consignados. Então, também é uma violência financeira. Bancos que usam do celular do idoso, ou o familiar que pega o cartão do idoso, vai ao banco sem a presença do idoso e faz o empréstimo consignado”, detalha. A presidente do abrigo aponta que, além do abuso financeiro e do abandono, existe uma terceira vertente que ela classifica como a “violência do poder público”, gerada pela lentidão na liberação de recursos voltados ao setor. Segundo Márcia, mais de R$ 5 milhões decorrentes de renúncia fiscal de grandes empresas, como a Energisa e o Grupo Bom Futuro, estão parados nos fundos estadual e municipal do idoso por falta de publicação de editais de chamamento público, ao passo que a fila de espera por uma vaga de acolhimento no próprio Abrigo Bom Jesus já soma 89 idosos. Diante disso, o grande desafio coletivo é romper a barreira da subnotificação, gerada pelo medo de retaliações ou pela dependência emocional e financeira que a vítima possui do agressor. O Junho Violeta reforça que envelhecer com dignidade e autonomia é um direito humano fundamental. A responsabilidade de proteger a população idosa não é exclusiva do Estado ou da vítima, mas de toda a sociedade. Ao presenciar qualquer sinal de maus-tratos, exploração patrimonial ou isolamento de um idoso, a orientação das autoridades é acionar imediatamente os canais de ajuda, como o Disque 100, que é gratuito e funciona 24 horas, delegacias de polícia, Ministério Público ou as unidades locais do CRAS e do CREAS, sendo a denúncia consciente a ferramenta mais eficaz para quebrar o ciclo de violência.

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Oficina de Culinária promove integração, autonomia e bem-estar entre idosos

Os moradores do Abrigo Bom Jesus participaram de mais uma edição da tradicional Oficina de Culinária, atividade que tem se destacado como uma importante ferramenta de promoção da saúde, socialização e valorização da pessoa idosa. A iniciativa reuniu alguns dos cerca de cem idosos acolhidos pela instituição em um momento de aprendizado, interação e convivência. A oficina é coordenada pela nutricionista da entidade, Laura Toledo, com a colaboração de duas estagiárias do curso de Nutrição da Universidade Federal de Mato Grosso, Jasmin Silva Lima e Amanda Gusmão, que auxiliam no desenvolvimento das atividades e no acompanhamento dos participantes. Durante o encontro, os idosos tiveram a oportunidade de participar ativamente do preparo de receitas, compartilhando experiências, memórias afetivas e conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Mais do que ensinar técnicas culinárias, a atividade busca estimular habilidades motoras, cognitivas e sociais, contribuindo para a manutenção da autonomia e da autoestima dos participantes. Segundo a coordenação, a oficina representa um espaço de inclusão e protagonismo, onde cada idoso pode exercer sua criatividade e fortalecer vínculos com os demais moradores e colaboradores da instituição. A culinária também desperta lembranças positivas, favorecendo o bem-estar emocional e promovendo momentos de alegria e descontração. Especialistas destacam que atividades como essa desempenham papel fundamental no envelhecimento saudável. Além de incentivar hábitos alimentares adequados, as oficinas culinárias ajudam a preservar capacidades funcionais, estimulam a coordenação motora, a concentração e a memória, fatores essenciais para a qualidade de vida na terceira idade. Para a nutricionista Laura Toledo, o envolvimento dos idosos nas etapas de preparação dos alimentos fortalece a sensação de pertencimento e utilidade, aspectos importantes para a saúde física e emocional. A participação das estagiárias também proporciona uma rica troca de conhecimentos entre gerações, aproximando os futuros profissionais da realidade do cuidado com a pessoa idosa. A direção do Abrigo Bom Jesus ressalta que iniciativas como a Oficina de Culinária integram o conjunto de ações desenvolvidas pela instituição com o objetivo de promover envelhecimento ativo, dignidade e qualidade de vida aos seus moradores. O sucesso de mais esta edição reforça a importância de atividades que valorizem a participação dos idosos, estimulando sua independência e fortalecendo sua integração social. Mais do que preparar receitas, a oficina proporciona experiências significativas, resgata histórias e demonstra que o aprendizado, a convivência e a construção de novos momentos permanecem presentes em todas as fases da vida.

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